O que é desejo?

Início Artigos Posts O que é desejo?
blog-details-banner

7 de outubro de 2026

É uma pergunta que parece simples, afinal, a gente sabe o que significa desejar alguém. É aquela vontade que aparece, às vezes inesperadamente, de se aproximar, tocar, beijar, transar.

Mas basta observar um pouco mais atentamente para perceber que o desejo não é tão simples assim.

Por que desejamos algumas pessoas e não outras? Por que sentimos desejo por alguém do mesmo sexo ou não? Por que podemos sentir desejo em determinados momentos e não em outros? Por que às vezes pensamos em sexo espontaneamente e, em outras situações, a vontade aparece apenas depois que a intimidade começa?

A resposta não é simples, nem linear. Talvez porque desejo não seja simplesmente algo que a gente tem. Mas algo acontece em algum lugar entre nosso corpo, nossa mente e o mundo ao nosso redor.

Desejo não é excitação

Uma das primeiras coisas importantes é entender que desejo e excitação não são exatamente a mesma coisa.

Podemos desejar alguém sem apresentar imediatamente uma resposta física de excitação. Da mesma maneira, o corpo pode apresentar uma resposta fisiológica sem que isso signifique necessariamente desejo. A sexualidade não funciona como uma máquina em que apertamos um botão e todas as etapas acontecem automaticamente.

Durante muito tempo, os modelos científicos da resposta sexual foram pensados de maneira relativamente linear. Os estudos de William Masters e Virginia Johnson, por exemplo, descreveram uma sequência de fases da resposta sexual, começando pela excitação e culminando no orgasmo.

Mas e o desejo nessa história?

Helen Singer Kaplan acrescentou o desejo como uma dimensão própria da resposta sexual, ou seja, as coisas começam com o desejo e depois seguem para a excitação, orgasmo.

Mas ainda havia uma pergunta importante: será que o desejo precisa necessariamente aparecer antes da excitação? Ou seja, para que a gente tenha uma resposta sexual, o desejo deve ser sempre espontâneo?

Imagine um casal que chega ao final do dia cansado. Nenhum dos dois estava particularmente pensando em sexo. Começam a conversar, ficam próximos, se beijam. Aos poucos, o contato físico se torna agradável e a excitação aparece.

Só então surge a vontade de continuar.

Nesse caso, o desejo não foi necessariamente o ponto de partida. Ele apareceu durante a experiência.

Essa possibilidade ganhou bastante atenção nos modelos contemporâneos da resposta sexual, especialmente nos trabalhos da pesquisadora Rosemary Basson.

É o que costuma ser chamado de desejo responsivo: em algumas circunstâncias, a vontade de fazer sexo pode surgir como resposta à intimidade, aos estímulos e às sensações prazerosas, e não necessariamente antes deles.

Isso é importante porque muitas pessoas interpretam a ausência de desejo espontâneo como sinal de que existe algum problema.

Mas talvez não exista.

Talvez aquela pessoa simplesmente não funcione dessa maneira. Ou ainda, que naquela ocasião, o desejo seja mais responsivo, mas que em outro momento o desejo seja mais espontâneo.

Mas como explicar o desejo?

Se o desejo fosse apenas uma questão de hormônios, seria muito mais fácil.

Mas basta pensar na própria experiência para perceber que não é assim. Por uma mesma pessoa, podemos sentir desejo em uma situação, mas em outra não. É a mesma pessoa, mesmo corpo, mas que desperta sentimentos diferentes.

O que mudou?

Talvez o cansaço. O estresse. A privacidade. A relação com o parceiro. A sensação de segurança. Uma discussão que aconteceu algumas horas antes. Uma preocupação que não sai da cabeça. Uma fantasia. Uma lembrança. Uma novidade.

Tudo isso pode participar da experiência do desejo.

O corpo pode ser biologicamente capaz de responder sexualmente, mas isso não significa que estará disponível para o sexo em qualquer circunstância.

Por isso, pensar o desejo apenas como “libido” pode ser insuficiente.

O que aprendemos a desejar

Existe ainda outra dimensão: nossa história.

Ao longo da vida, determinadas experiências adquirem significado para nós. Aprendemos associações. Criamos fantasias. Descobrimos preferências. Algumas coisas passam a nos atrair; outras, não.

O desejo não nasce em um vazio.

Ele é atravessado pela cultura, pelas experiências, pelas relações, pelas fantasias e pela maneira como aprendemos a enxergar nosso próprio corpo.

Isso não significa que escolhemos conscientemente aquilo que desejamos.

Ninguém simplesmente decide, numa manhã de terça-feira, começar a desejar determinada pessoa.

Significa que o desejo humano é muito mais complexo do que um simples impulso biológico.

Então, afinal, o que é desejo?

Talvez não exista uma única resposta.

Desejo pode ser antecipação. Pode ser curiosidade. Pode ser atração. Pode ser vontade de tocar ou de ser tocado. Pode aparecer antes do sexo ou surgir durante uma experiência íntima. Pode ser intenso. Pode ser discreto. Pode mudar ao longo da vida. E pode, inclusive, desaparecer por algum tempo sem que isso signifique necessariamente que alguma coisa esteja errada.

Talvez uma das melhores maneiras de compreender o desejo seja justamente abandonar a expectativa de que ele deveria funcionar sempre da mesma maneira.

Compreender como o desejo funciona para cada pessoa talvez seja muito mais interessante — e muito mais útil — do que tentar descobrir o que é desejo. Porque quando o assunto é sexualidade, existe muito acontecendo nas entrelinhas.

Para saber mais

  • Basson R. Biopsychosocial models of women’s sexual response.
  • Kaplan HS. The New Sex Therapy.
  • Masters WH, Johnson VE. Human Sexual Response.
  • Nagoski E. Come as You Are.
  • Bancroft J, Janssen E. trabalhos sobre o Dual Control Model of Sexual Response.

Giuliano Bongiovanni

Author