Os aceleradores e os freios do desejo

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7 de outubro de 2026

Imagine que seu desejo sexual tenha dois sistemas de controle:

Um deles funciona como um acelerador.

O outro, como um conjunto de freios.

O acelerador percebe aquilo que pode ser sexualmente interessante: uma pessoa, um toque, uma fantasia, uma lembrança, uma situação, uma novidade.

Os freios fazem o movimento contrário. Eles percebem aquilo que pode representar risco, desconforto, ameaça ou simplesmente falta de disponibilidade para o sexo.

O interessante é que os dois sistemas podem funcionar ao mesmo tempo. E talvez isso explique uma parte importante da nossa vida sexual. Essa é uma teoria da resposta sexual postulada por John Bancroft e Erick Janssen.

O acelerador

Algumas coisas aumentam nossa disponibilidade para o sexo. Pode ser a atração por alguém. Um beijo. Uma fantasia. Uma lembrança. Uma conversa. O ambiente. A sensação de intimidade. A novidade. Não existe uma lista universal. O que funciona como estímulo sexual para uma pessoa pode não produzir absolutamente nada em outra.

O acelerador, portanto, não responde apenas a estímulos físicos. Ele também responde ao significado que damos a eles. Uma determinada situação pode ser excitante porque desperta uma fantasia. Outra pode ser excitante porque transmite segurança. Outra, porque é nova. O desejo não está apenas no estímulo. Está também na maneira como o nosso cérebro o interpreta.

E os freios?

Agora imagine que você esteja diante de uma situação potencialmente excitante. Mas você está exausto. Ou preocupado. Ou com medo de ser interrompido. Ou pensando em uma discussão que teve algumas horas antes. Ou inseguro com o próprio corpo. Ou simplesmente não está se sentindo disponível para aquilo naquele momento.

O estímulo sexual continua existindo, mas alguma coisa está acionando os freios. É por isso que perguntar apenas “o que faz você sentir desejo?” pode ser insuficiente. Às vezes, a pergunta mais importante é: “O que está impedindo o seu desejo de aparecer?”

O problema não é necessariamente o acelerador

Essa maneira de pensar pode mudar bastante a forma como interpretamos a falta de desejo. Imagine alguém que procura ajuda porque percebe que não tem vontade de fazer sexo. A primeira reação pode ser procurar uma explicação:

“Será que minha libido está baixa?”

“Será que meus hormônios estão alterados?”

“Será que eu não sinto mais atração pelo meu parceiro?”

Essas perguntas podem ser importantes. Mas talvez exista outra possibilidade. O acelerador pode estar funcionando normalmente. O problema é que os freios estão sendo acionados o tempo todo e eles podem ser muito diferentes de uma pessoa para outra.

Por exemplo, imagina um casal num quarto de motel. Ambiente feito para o sexo, clima esquentando, aceleradores atuando com força. Mas aí uma das pessoas pensa que naquela cama outro casal acabou de transar. E o pensamento vem: será que limparam esses lençóis direito? Ou então, no meio de todos aqueles espelhos nas paredes, no teto, o pensamento vem: será que meu corpo está atraente, ou pareço acima do peso?

Observem como os freios atuam e bloqueiam o efeito dos aceleradores. E no final, a resposta sexual fica prejudicada.

Os freios não são inimigos

Talvez essa seja uma das partes mais importantes dessa ideia. Frear não é necessariamente um problema. Eles existem por uma razão. Precisamos ser capazes de perceber perigo, desconforto, falta de segurança ou ausência de consentimento.

Uma sexualidade saudável não é aquela em que os freios estão permanentemente desligados. É aquela em que conseguimos reconhecer quando acelerar e quando parar. O problema aparece quando os freios são acionados de maneira constante ou desproporcional, mesmo quando não existe uma ameaça real. Ou quando determinadas experiências fizeram com que situações que poderiam ser prazerosas passassem a ser associadas a medo, vergonha ou insegurança.

Talvez, em algumas situações, seja mais útil perguntar: O que está acelerando? O que está freando? E, principalmente: O que está acontecendo ao meu redor enquanto tento desejar?

Porque, quando o assunto é sexualidade, existem muitas coisas acontecendo nas entrelinhas.

Giuliano Bongiovanni

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